A morte do cartão

No filme Coração Valente de 1995, William Wallace, herói escocês do século 13, interpretado por Mel Gibson, lidera seus conterrâneos contra o exército inglês. Uma de suas frases icônicas no filme foi: “Todos morremos, o que importa é como e quando.”

Há bastante tempo, especialistas do setor vêm decretando a morte do cartão. Roberto Campos Neto, do BACEN, chegou a declarar recentemente que o cartão deixaria de existir “em breve”. Sua opinião é compreensível. O PIX chegou e pouco mais de 3 anos após o seu lançamento, os números impressionam. Em dados recentes divulgados pelo BACEN, 33 milhões de pessoas que não faziam transferências eletrônicas antes do PIX, agora usam o produto de forma regular.

Da população adulta brasileira, 83% já são usuários, o que representa 144 milhões de pessoas. O número total já superou 158 milhões de usuários e foi atingido o recorde de 163 milhões de transações em um único dia. A agenda evolutiva do PIX é ainda mais promissora, contendo soluções de cobrança, pagamento recorrente, simplificação de jornada via ITP no Open Finance, transações internacionais e por aí vai. Outros países também entraram na onda e lançaram suas próprias versões na modalidade 24x7x365, tais como México, Portugal, Espanha, Japão e Rússia, para citar apenas alguns. A solução é mais que tendência. É caminho sem volta.

Como se não bastasse o PIX ser tech, ser pop, ser tudo, um dos principais benefícios do cartão, o Parcelado Sem Juros, vem sendo fortemente atacado por potencialmente contribuir para o endividamento dos brasileiros, somado a outros fatores como juros do rotativo e o MDR que é a taxa cobrada do estabelecimento. A combinação destes fatores seria a causadora do aumento no preço de venda de produtos.

Em meio a tudo isso, surpreendentemente, o cartão continua crescendo. Segundo a ABECS, o meio de pagamento cresceu 24,6% em 2022, já sob o fogo cruzado da competição com o PIX. Em 2023, o cartão vai continuar crescendo, algo entre 9% e 11% segundo a própria ABECS, mostrando uma desaceleração. Olhando com carinho os números do cartão no 1º semestre de 2023, a modalidade crédito cresce 10,1% em volume transacionado (valor) e cai 5,1% quantidade de transações.

Já o débito teve desempenho oposto, caindo 3,3% no volume e crescendo 4,5% na quantidade de transações. Os cartões pré-pagos, por sua vez, crescem acima dos 40% tanto em volume quanto em quantidade. O fenômeno é no mínimo interessante. É como se a sabedoria popular fosse encaixando aos poucos a adoção dos meios de pagamento nos seus hábitos de consumo, usando um ou outro conforme a sua conveniência.

Mas afinal, o cartão vai mesmo morrer? Esta discussão não é nova e quanto mais o tempo passa, maior a chance de alguém acertar o quando e o como do cartão. Lá atrás, as discussões recaíam sobre o cartão plástico versus outros meios como pulseiras, chaveiros, tags e outros tantos ainda mais avançados como relógios e smartphones, tudo com tecnologia NFC. Entretanto, esqueceram-se de que o cartão, parafraseando Jeffrey Wingand, um ex-executivo da indústria de cigarros, interpretado por Russell Crowe no drama O Informante do ano 2000, sempre foi apenas um “dispositivo para entrega” de crédito.

Se o cartão de crédito vem resistindo, não por acaso, a ABECS tem priorizado em sua agenda deste ano o desenvolvimento do débito online, modalidade no qual o consumidor poderá pagar com seu cartão de débito diretamente no checkout das empresas participantes do programa, sem ser direcionado a nenhuma outra plataforma e sem a necessidade de inserir senha para valores até R$300. Aqui, o esforço da indústria de pagamentos é para melhorar a experiência do consumidor, com segurança, pegando carona no crescimento consistente que o online vem performando ao longo do tempo, seja nos e-commerces, plataformas de streaming, entregas e transportes. Detalhe importante, fundamental eu diria: quem paga com débito online, também pode pontuar nos programas de relacionamento do emissor ou da bandeira.

No fundo, no fundo, muito do que lemos e ouvimos faz parte de uma guerra de narrativas, no qual a única certeza é que o ciclo de vida de qualquer meio de pagamento, passa por gerar soluções que entreguem conveniência, credibilidade, vantagens e segurança. Talvez para o cartão, assim como para Rocky Balboa no filme de 2006, “o que importa não é o quanto você bate, mas sim o quanto você aguenta apanhar e seguir em frente”.

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